Baiana se apaixona pela internet e aprende a fazer acarajé pra viver com seu amor no interior de SP
25/07/2018 11:41 em Novidades

Casal se conheceu conversando pelo Facebook; só depois de mudar para Santa Bárbara d'Oeste que 'Prêta' aprendeu a fazer o prato típico da Bahia e montou com o 'namorido' um restaurante no quintal para viverem juntos.

 

Por Fernando Jacomini*, G1  

Piracicaba e Região

Imagem: 'Prêta' aprendeu a fazer o acarajé e agora prepara o alimento no próprio quintal de casa (Foto: Fernando Jacomini/G1)

Da capital baiana, onde não conhecia nada do acarajé, para terrinhas no interior de São Paulo, local em que o alimento virou sua especialidade e fonte de renda. Essa história começa em uma conversa pela internet, que revelou o amor da vida de Eliane Raquel Batista de Sousa, de 51 anos. Em um mês, "Prêta", como prefere ser chamada — deste jeito mesmo, com acento circunflexo —, largou tudo em Salvador (BA) para viver com o "namorido" em Santa Bárbara d’ Oeste (SP). Atualmente, administram um espaço de culinária baiana no quintal da casa paulista.

Há pouco mais de um ano a baiana recebeu o convite de amizade no Facebook do professor de música Luiz Paulo Camilo, de 53 anos. Depois de um tempo, ela aceitou a solicitação e o chamou. Rapidamente começaram a conversar sobre tudo, mas sem qualquer expectativa de um relacionamento sério. Bastou um mês de prosa para "Prêta" fazer as malas e embarcar no voo das 2h40 de 21 de maio de 2017 com destino a São Paulo.

“Fui para conhecer Paulo e aqui fiquei. Coloquei tanta coisa na mala que já parecia que isso ia acontecer”, diz, brincando que jogou na bagagem até roupas molhadas que estavam no varal.

“A maior dificuldade em Salvador não era financeira,

mas, sim, sentimental. Aos 50 anos,

precisava mudar minha vida”, enfatiza.

Vida na Bahia

 

"Prêta" dava aulas para 50 jovens em um programa educacional em Salvador, até que, após ter sofrido um infarto aos 45 anos, ficou internada por um mês na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), entre a vida e a morte. Quando teve alta, começou a entrar em depressão, pois não conseguia arrumar emprego.

Conseguiu trabalho varrendo o chão e lavando o banheiro de uma empresa, mas pouco tempo depois foi demitida. Começou, então, a vender comida para se sustentar. Aprendeu cedo a cozinhar, com apenas 9 anos.

Em seguida começou a conversar com Camilo pela internet. "Prêta" explica que o causador desse amor à primeira vista foi eles terem se encontrado bastante nos gostos culturais, além do respeito, desde o começo, de um ao outro.

"Sentia algo muito forte por Paulo antes mesmo de ter o encontrado pessoalmente. Quando pisei naquele aeroporto, já tínhamos a certeza de que seríamos um do outro", lembra. E acrescenta: "Nosso gostar não é aquele de obrigação, mas sim, o verdadeiro, de se sentir bem em ficar perto um do outro."

A história de amor de "Prêta" e Camilo se espalhou. Ela conta que são procurados por pessoas que estão conhecendo alguém pela internet, pedindo "lições" e conselhos, já que os dois, mesmo com a idade, se deram bem com a tecnologia em favor do encontro da "cara-metade".

 

O que falta é as pessoas acreditarem no amor.

Ele existe, independentemente da forma em que o encontramos.

Nunca é tarde", aconselha "Prêta".

 

Especialista no acarajé

"Prêta" sempre gostou de cozinhar, e, à época, Camilo trabalhava em uma gráfica, com uma situação financeira não das melhores. Começaram juntos, então, a tentar empreender na culinária. No começo, ela preparava panquecas de carne seca para o namorado levar ao trabalho — prato que era bastante elogiado pelas pessoas. Por causa disso, passou a fazer a massa para vender.

Só que, com o passar do tempo, as pessoas que conheceu em Santa Bárbara começaram a perguntar se "Prêta" sabia fazer acarajé, mas ela não entendia nada do prato típico.

 

“Como é que pode uma baiana

não saber fazer o acarajé?”,

questiona rindo.

 

Foi então que um dia estava em Campinas (SP) e teve a ideia de procurar no mercadão ingredientes para preparar a especiaria. Comprou o feijão fradinho e o azeite de dendê. Quando chegou em casa, tentou fazer o alimento, sem ao menos pesquisar qualquer receita antes.

“E não é que deu muito certo? Quando coloquei na boca, não veio só a lembrança da Bahia, mas também a emoção enorme de ter conseguido fazer meu próprio acarajé”, relembra "Prêta", feliz da vida.

As 30 porções que renderam na primeira leva foram provadas e aprovadas pelo namorado e pelos amigos dela. Começou então a anunciar a venda do prato típico pelo Facebook. A unidade custava R$ 7. “O que lotou de gente querendo acarajé não tinha no gibi”, conta.

O movimento foi tanto que o casal começou a procurar um novo espaço, já que aquele, no bairro Mollon, em Santa Bárbara d'Oeste, tinha se tornado pequeno demais para acomodar tamanha gente. Resolveram alugar uma casa que dava para servir o prato no quintal.

É na própria garagem que "Prêta" e Camilo preparam o acarajé. A decoração nas mesas, teto e parede dão ainda mais contraste ao "ar" da Bahia. Ela faz questão de ressaltar que não considera ainda o espaço como restaurante. “Até queremos contratar gente para trabalhar, mas nunca achamos alguém qualificado para a culinária baiana”.

Os frequentadores do local aguardam o pedido escutando as histórias de vida da simpática baiana, que também conta toda a história do tradicional prato nordestino.

"Prêta" explica que um dos equipamentos utilizados para moer a massa do acarajé é o moinho, mas, como ainda não tem um, pelo alto valor, bate os ingredientes em um liquidificador. No entanto, ela garante que o alimento fica igualzinho ao da Bahia.

 

“O segredo no preparo do acarajé

não está só em como é feito,

mas também no carinho”, defende.

 

A fórmula do acarajé de "Prêta" deu tão certo que, além de participar de diversos eventos gastronômicos pela região, ela também virou coordenadora regional da Associação das Baianas do Baião de Acarajé de São Paulo. Com um cargo de tamanha importância, "Prêta" aproveita para dar um alerta aos paulistas, que precisam, segundo ela, conhecer melhor sobre a cultura gastronômica nordestina.

"Não existe essa de pedir o acarajé quente ou frio. Ou é com pimenta ou sem pimenta, tem que ser direto”, brinca.

Atualmente, além do acarajé, a baiana serve outros pratos típicos como abará, vatapá, moqueca de peixe, bobó de camarão e rabada. Ela também faz doces, como queijadinha.

 

'Namoridos'

Pode até haver bastante desentendimento entre os dois, mas um dos maiores sonhos de "Prêta" é se casar com o “namorido”, nome que ela dá ao atual momento de relação com Camilo, que dura pouco mais de um ano.

“Falta é tempo para organizarmos nosso casamento , além de que preciso da certidão de nascimento, que ficou em Salvador”, conta a cozinheira, antecipando que, quando casar, vai ser no estilo africano, de um jeito que as pessoas fiquem à vontade, com uma cerimônia sem nada de luxo.

O casal aproveita a única folga da semana, no domingo, para frequentar lugares que se aproximam da cultura da Bahia, principalmente rodas de samba.

Ela é enfática ao afirmar que não voltaria para Salvador, onde tem um filho de 27 anos e uma netinha de 5, que diz ser a maior inspiração dela.

“Estou reconstruindo todo o meu coração em São Paulo, me acostumando com a energia e com o frio da região, então daqui não saio”.

Mesmo a cozinha não sendo seu forte, Camilo ajuda bastante "Prêta" nas tarefas do pequeno comércio. Ele, que morou sozinho por 20 anos sem nunca ter namorada, diz que a baiana veio para preencher tudo o que faltava na vida dele.

 

“A chegada dela fez com que tudo mudasse completamente, foi uma virada de 360 graus. Mudou meus pensamentos e entendimentos acerca da vida”, conta emocionado.
Fonte: G1
 
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