Completa 40 anos, o disco de Beth Carvalho que revolucionou o samba
08/08/2018 14:32 em Música

Leonardo Bruno - Jornal Extra.

Quando Beth Carvalho convidou uma turma nova, que estava fazendo um som diferente no Cacique de Ramos, para tocar no disco que lançaria em 1978, enfrentou um problema de ordem prática: amadores, os rapazes não tinham carteira de músicos e, portanto, não poderiam receber pelo trabalho. A questão foi resolvida à brasileira: eles conseguiram o dinheiro em nome de amigos que já eram profissionais. Mas era questão de tempo para essa rapaziada sair do amadorismo, catapultada pelo sucesso do LP “De pé no chão”, que se transformou num marco da música brasileira. Eles inauguravam ali o “pagode carioca”, que completa 40 anos consolidado como o maior movimento musical do país depois da bossa nova. A data será comemorada à altura, com show de Beth Carvalho e Fundo de Quintal, dia 1º de setembro, no KM de Vantagens Hall, na Barra, e o relançamento do disco em vinil e nas plataformas digitais.

— O Cacique de Ramos criou um novo som para o samba, com instrumentos novos ou tocados de forma diferente, como o repique de mão, o tantã e o banjo com afinação de cavaquinho. Aquilo dava um molho, trazia uma levada que ninguém tinha. O disco de 1978 consagrou meu encontro com essa turma. E agora é hora de celebrar. Vai ser a primeira vez que faço um show assim com o Fundo de Quintal. Vamos cantar todas as músicas do LP e sucessos nossos — diz Beth Carvalho, que, a partir dali, começou a ser chamada de “madrinha”.

A capa do LP “De pé no chão”, de Beth Carvalho (1978) Foto: Arquivo jornal Extra

 

Dois anos após “De pé no chão”, nasceu o Fundo de Quintal, com a nata da turma que inventou aquela sonoridade: Jorge Aragão, Almir Guineto, Sombrinha, Neoci e o trio Ubirany/Sereno/Bira Presidente, a Santíssima Trindade da Batucada, que até hoje segue no grupo. E os anos 80 testemunharam uma explosão do pagode, com o surgimento de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jovelina Pérola Negra, consagrando um estilo de samba que é dominante até hoje.

— Na primeira vez em que ouvi aquele samba, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Era muito diferente do convencional, no ritmo e nas harmonias — conta Nei Lopes, que registra o surgimento do pagode em seu “Dicionário da história social do samba”: — Esse movimento tem o mesmo peso da revolução da bossa nova. E vai além, porque inovou reverenciando a tradição, trazendo para os holofotes a arte e a inteligência do partido-alto, o samba dos bambambãs.

CARTOLA TAMBÉM ESTÁ LÁ

 

O produtor Rildo Hora foi o responsável por levar a turma para o estúdio, e resolveu fazer uma espécie de teste de fogo. Será que aqueles rapazes todos tocando juntos, num ambiente profissional, dariam, bem, samba? E como microfonar os novos instrumentos? O início foi cheio de dúvidas, mas as respostas apareceram a partir da junção dos novos batuqueiros com os experientes músicos que já tocavam com Beth, como Dino Sete Cordas, Wilson das Neves, Mané do Cavaco e Manoel da Conceição.

— A ideia era fazer só duas faixas com o Cacique. Mas ficou tão bom que a gente fez o disco inteiro. O samba nos anos 19 40 era gravado com as orquestras do rádio, saxofone, trompete, piano. Aos poucos descobrimos uma forma de gravá-lo como ele é tocado no terreiro — explica Rildo.

Além da forma de tocar, outros fatores podem explicar o sucesso do disco. Um deles é a seleção de compositores que assinam as faixas (leia ao lado). E, para ajudar no coro e nas palmas, houve o luxo de nomes como Luiz Gonzaga, Cartola, Martinho da Vila, Nelson Cavaquinho e Monarco. “De pé no chão” já era histórico antes mesmo de ser lançado.

A ERA DOS QUINTAIS

 

Ofenômeno do Cacique de Ramos não surgiu por acaso, no meio dos anos 70. Aquele foi o período em que as escolas de samba deixaram de ser o local onde os compositores iam mostrar sambas.

— Nessa época, o samba-enredo virou uma febre. Quando os sambistas tentavam apresentar uma música nova na quadra, os diretores não deixavam, diziam que aquilo botava o ensaio para baixo. Foi aí que muita gente migrou para os quintais. A Velha Guarda da Portela foi para a casa da Tia Doca. E os mais jovens foram para o Cacique — explica Monarco, único com duas músicas em “De pé no chão”.

Outros movimentos surgiram na época como resposta à nova configuração das escolas, entre eles o Quilombo e o Clube do Samba. Antes de fundar o Quilombo, Candeia transformou sua casa num desses points. Foi num encontro assim que surgiu “Você, eu e a orgia”, parceria do bamba portelense com Martinho da Vila, que abre o lado B do disco “De pé no chão”. Em 1978, Martinho também já estava interessado naquela sonoridade, que pode ser ouvida no LP lançado por ele naquele ano, “Tendinha”.

— “Tendinha” nasceu muito por influência do Candeia, porque eu vinha numa temática mais romântica, e ele disse que eu precisava fazer partido-alto — diz Martinho.

Zeca Pagodinho, um dos maiores frutos gerados no Cacique de Ramos, lembra que esses encontros de compositores nos quintais não tinham objetivos de mercado:

— Ninguém ia lá mostrar samba para tentar ser gravado, fazer carreira. A gente queria só cantar, curtir, ficar com os amigos. Todo mundo trabalhava fora dali: eu, Luiz Carlos da Vila, Arlindo Cruz, cada um tinha seu emprego. As carreiras musicais aconteceram naturalmente.

Jorge Aragão, caciqueano de primeira hora, também lembra a despretensão das rodas:

— Não havia ideia de criar um movimento, nem imaginávamos que aquilo podia ter longevidade. Uns jogavam baralho, outros iam pelo futebol, e uma turma fazia música...

Mas, apesar de despretensiosa, aquela rapaziada sabia muito bem o que queria. A história de “Vou festejar” comprova isso. A música, antes de se tornar o maior sucesso do LP de Beth Carvalho e símbolo da nova forma de fazer samba, havia parado nas mãos de Elza Soares. Ela ia gravá-la com arranjo de baixo, piano e bateria. Os compositores, ao ouvirem o registro, rejeitaram a orquestração “careta”: a música tinha que ter a “pegada” do Cacique. Resultado: Elza não gravou, Beth abriu “De pé no chão” com ela e “Vou festejar” explodiu em todo o país. A canção conseguiu a proeza de se tornar a música do carnaval de 1979, numa época já dominada pelos sambas-enredo.

— Ia ao Cacique me divertir. Pegava meu Puma conversível, saía do Joá e partia para Ramos numa época em que se fazia isso em segurança. Demorou um ano até perceber que tinha que gravar aqueles caras — lembra Beth, com sorriso de quem, 40 anos depois do feito, sabe que apostou certo.

O SAMBA RENASCE EM ANO DE DISCOTECA

 

O ano de 1978 ficou marcado pela disco music, sucesso nas pistas e na novela “Dancin’ days”. Mas, na contramão das meias de lurex, o samba produziu discos memoráveis. Além de “De pé no chão”, foi o ano de “Tendinha”, uma joia na discografia de Martinho da Vila, e que já flerta com o Cacique, com músicas de Neoci e Aragão, e tendo Almir Guineto e Sereno na banda.

Outro clássico do ano é “Axé”, a obra-prima de Candeia, lançado poucas semanas depois de sua morte. Clara Nunes vende mais um de um milhão de cópias do seu ótimo “Guerreira”, enquanto Paulinho da Viola lança um LP com “Coração leviano”. Já Roberto Ribeiro estoura com “Todo menino é um rei”, e Alcione lança o álbum “Alerta geral”, que lhe rendeu até um programa na TV Globo, com o mesmo nome.

 Fonte: Jornal Extra.

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