Samba antológico da Imperatriz, 'Liberdade, liberdade', que completa 30 anos, quase foi parar na Portela
06/02/2019 11:00 em Cultura

Imagem:Chegada do desfile da Imperatriz Leopoldinense à dispersão, em 1989 | Carlos Ivan / Agência O Globo

 

Responsável por consagrar o samba que se tornaria hino da Imperatriz Leopoldinense, o enredo "Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós", dedicado ao centenário da República, por pouco não foi parar em outra escola. Antes de chegar a Ramos, onde acabaria campeão do carnaval de 1989, o carnavalesco Max Lopes apresentou o tema à Portela, mas a azul e branco menosprezou a proposta, reduzida a "enredo de bloco". Naquele ano, a escola de Madureira chegaria ao fim da quarta-feira de cinza na modesta sexta posição.

- "Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós", no meu entender, tinha muito a ver com a Portela. Ofereci à escola porque a águia é o símbolo da liberdade. Mas o tema foi absolutamente bem recebido pela Imperatriz, que tem uma abordagem cultural muito forte, um de seus traços marcantes, e me deu ampla liberdade para trabalhar - relembra o carnavalesco, que naquele ano conquistava seu segundo título.

A composição vencedora, parceria de Jurandir, Niltinho Tristeza, Preto Joia e Vicentinho, é uma obra-prima e está em todas as antologias de melhores sambas-enredo de todos os tempos. A combinação entre o trabalho plástico de Lopes e a musicalidade arrebatou os jurados, que deram à escola de Ramos notas dez de ponta a ponta da apuração.

Se o título ficou na Leopoldina, as imagens produzidas pela Beija-Flor, com o histórico Cristo Mendigo de Joãosinho Trinta, censurado pela Arquidiocese do Rio, ficaram registradas como as mais marcantes daquele carnaval. Aos 61 anos, o compositor Preto Joia não entende que o desfile da Imperatriz perdeu com a repercussão das novidades apresentadas pela agremiação de Nilópolis.

- Pelo contrário. Vencer a Beija-Flor naquelas condições só valoriza o nosso título. E as duas escolas ficaram empatadas até o final da apuração. O desempate veio justamente no quesito samba-enredo. Quer coisa melhor? - celebra.

Imagem:Destaque como princesa Isabel junto ao texto da Lei Áurea no desfile da Imperatriz, em 1989 | Acervo/Agência O Globo

 

O carnavalesco, conhecido também pelos enredos barrocos, utiliza as palavras do próprio rival vencido naquele ano, Joãosinho Trinta, para analisar o que aconteceu na apuração.

- Joãosinho Trinta sempre dizia que o povo gosta de luxo, que quem gosta de miséria é intelectual. Em 1989, o luxo venceu o lixo - afirma, em alusão a "Ratos e urubus, larguem a minha fantasia", enredo da Beija-Flor naquele ano.

Mas não seria justo dizer que a escola de Ramos resumiu seu desfile à opulência. Havia beleza plástica e elementos surpresa. Max Lopes impressionou ao trazer a coroa-símbolo da escola no abre-alas, iluminada por cerca de três mil lâmpadas. No carro "Guerra do Paraguai", impressionou com um cavalo que trazia o destaque Zacarias de Oxóssi como Duque de Caxias, a 12 metros do chão. Era mais alto que a torre de televisão do sambódromo, algo impactante para a época.

 

POLÊMICAS POLÍTICAS

O samba que completa 30 anos neste carnaval não era o preferido da Imperatriz Leopoldinense. A escola estava inclinada a escolher outra composição, da autoria do intérprete Dominguinhos do Estácio, mais descritivo. O apoio do carnavalesco foi decisivo para que o patrono Luizinho Drummond referendasse a escolha. Mas o que encantou o artista na composição?

- A Imperatriz vinha de um carnaval difícil. Em 1988, foi a última colocada. Para aquele ano, tínhamos um enredo histórico, pesado e um desfile pesado. Precisávamos de um samba leve, que contagiasse a avenida, para embalar. Eu gostei muito, porque tratava do enredo da escola, de modo descritivo, mas também de modo poético - relembra o Mago das Cores, como é conhecido na folia.

A melodia do samba ficou pronta antes da composição: a parceria aproveitou um trabalho melódico já iniciado por Niltinho Tristeza, que seria concluído adiante. Embora a obra tenha ficado marcada pelo refrão "Liberdade, liberdade!/Abra as asas sobre nós/ Que a voz da igualdade/Seja sempre a nossa voz", ela despertou reações da sociedade civil.

Imagem: Dominguinhos do Estácio: intérprete da Imperatriz no carnaval de 1989 | Guilherme Bastos / Agência O Globo

 

Representantes do movimento negro questionavam os versos "Pra Isabel, a heroína/ Que assinou a lei divina/Negro dançou, comemorou o fim da sina", criticado por retratar a Lei Áurea como um ato de benevolência da monarca, e não uma como reflexo de luta política. Já herdeiros da antiga família real brasileira demonstraram preocupação com a maneira como a queda do Império seria retratada. 

- Eu disse aos representantes do movimento negro que eu não era o autor da composição, mas que não ficaria bem dizer que a princesa Isabel foi obrigada a assinar a lei. Sobre a família real, eu expliquei que apresentaria o fim do Império com o último baile da Ilha Fiscal - rememora Lopes.

Tocado até hoje nas principais rodas de samba da cidade, "Liberdade, liberdade! Abras as asas sobre nós" não teria espaço no carnaval contemporâneo. Essa é a opinião de um dos próprios autores da obra. Preto Joia lamenta que o ritmo acelerado dos desfiles produza obras que considera melodicamente pobres. 

- O samba era bem melodioso, como não se encontra mais. Tanto que não houve novos sambas antológicos de 1989 para cá. É algo que se perdeu - avalia o compositor.

O carnavalesco concorda: 

- O nosso samba já era bem acelerado para a época. Não poderíamos acelerá-lo mais para adequá-lo aos tempos de hoje, caso contrário, viraria um frevo. Não tenho dúvidas de que o samba levantou a escola. Um bom samba sempre faz isso e ofusca os problemas que eventuamente existam - conclui Lopes.

Embora a Portela tenha rejeitado o samba, o desfile da Imperatriz naquele ano seria fechado com uma águia. Meses depois, muitos eleitores de diferentes inclinações políticas utilizaram a música como trilha sonora para a eleição, para celebrar a primeira vez que foram às urnas, em eleições diretas, para eleger um presidente desde 1960. 

 

Fonte site: blogs.oglobo.globo.com

 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!